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Pisca-Pisca, da ECA Amazônia, selecionado no Circuito Tela verde e mais 3 festivais

Documentário educomunicativo produzido por adolescentes e jovens participantes do programa  Escola de Cidadania para Adolescentes em Ferreira Gomes, no Amapá, também está recebendo inscrições para circuito de exibição seguido de debates sobre a questão energética

Por Monise Berno

Pisca-Pisca, curta documentário cartográfico produzido a partir de processos educomunicativos por jovens moradores de Ferreira Gomes, município rural do Amapá (Amazônia), foi selecionado para 3 festivais , além de ser contemplado para a 13ª Mostra do Circuito Tela Verde, iniciativa do Departamento de Educação Ambiental e Cidadania do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Em 17 minutos, uma série de depoimentos sobre o serviço de energia elétrica no Estado é captada a partir do olhar de jovens que narram a realidade de viver com falta de energia em um local onde a oferta deveria ser constante, já que a cidade abriga 3 hidrelétricas.

O tema, argumento, captação de imagens e áudio foram feitos por 15 jovens com idades entre 14 e 19 anos, a partir de uma formação educomunicativa em audiovisual comunitário implementada pela equipe da Viração em conjunto com profissionais das produtoras Cinema e Sal e Camboa Audiovisual, como atividade da Escola de Cidadania para Adolescentes – programa da Viração que tem por objetivo contribuir para o fortalecimento da participação e a promoção dos direitos humanos de adolescentes e jovens.

Além de estar aberto a exibições dentro do Circuito Tela Verde 2024, Pisca-Pisca foi selecionado para exibição no First-Time Filmmaker Lift-Off Sessions March 2024 –  Student Shorts – Students of Storytelling, uma iniciativa de um estúdio do Reino Unido que agrega uma rede de festivais em várias cidades do mundo, para o Latin & Native American Film Festival (LANAFF) da Southern Connecticut State University, que abrange a temática de filmes latinos e indígenas e para Cine RO, o Festival de Cinema de Rondônia que em Agosto realiza sua 2ª edição.

Para exibir o curta documentário e outros filmes selecionados na 13ª Mostra do Circuito Tela Verde, salas verdes, organizações, instituições de ensino formais e não formais, entidades públicas, ONGs, associações, cooperativas, instituições religiosas, empresas e grupos interessados devem se inscrever até 30 de maio. Os espaços selecionados deverão exibir os filmes de acordo com as orientações do guia preparado pela organização. O local disponibilizado pode ser espaço físico fixo, virtual ou itinerante, e cada instituição tem autonomia para definir quais vídeos serão exibidos em quantas mostras desejar. A chamada está aberta na página do Departamento de Educação Ambiental e Cidadania.

Entre maio e setembro de 2024, escolas, igrejas, centros culturais, sindicatos, universidades, espaços públicos, associações comunitárias, assembleias legislativas, espaços políticos, eventos sobre o clima e mudanças climáticas podem exibir o filme em todo o país. Basta preencher o formulário abaixo:

Exiba o Pisca-Pisca em todo o Brasil!

Conheça a Ficha Técnica de Pisca-Pisca

Realização: Viração Educomunicação

Diretores: 

  • Alerrandro Pelaes Marques
  • Ana Beatriz Costa de Souza
  • Fernando de Carvalho Vaz
  • Gustavo Almeida dos Anjos
  • Deivid Souza Brazão
  • Ingrid Carol Maia dos Santos
  • Joabe Barata do Carmo
  • Maiane Estefany Rocha Fernandes
  • Manoel Vicente Cruz da Costa
  • Maria Fernanda Sanches
  • Zaquias dos Santos Pereira
  • Vitória Nascimento Farias
  • Cantores do Videoclipe:
  • Alerrandro Pelaes Marques
  • Ana Beatriz Costa de Souza
  • Gustavo Almeida dos Anjos
  • Maiane Estefany Rocha Fernandes
  • Manoel Vicente Cruz da Costa
  • Zaquias dos Santos Pereira
  • Vitória Nascimento Farias
  • Coordenação do Projeto: Natalie Hornos
  • Educadoras: Lara Beck, Natalie Hornos, Gabriel Teixeira (fotografia)
  • Produção: Marco (Jamelão) Rubio 
  • Arte: Marina Castilho
  • Consultoria e inspiração pedagógica: Cinema e Sal
  • Consultoria Audiovisual: Camboa Audiovisual
  • Fotografia e Making Off: Gabriel Teixeira
  • Edição e cor: Lara Beck

Para desmentir FAKE NEWS sobre a crise climática

Uma lista de dicas práticas pra você não cair em fake news sobre as mudanças climáticas e começar a adotar comportamentos mais sustentáveis

Por Lívia Gariglio

Veicula-se pela internet que o sol está ficando mais quente e não há nada o que se possa fazer para evitar o aquecimento global, entretanto, isso é inverídico, uma vez que já foi provado que a maior causa do aumento de temperatura mundial é a ação humana.

 

Ilustração: Jovens Repórteres para o Meio ambiente PT / reprodução

 

COMO MUDAR ISSO?

… na sua casa:

  • Plante árvores nativas da região no seu quintal e na sua comunidade;
  • Preze por energias alternativas, como a solar, eólica e biocombustíveis;
  • Use as regrinhas básicas de economia de energia.

.. nos seus hábitos

  • Leve garrafinha contigo (diminuindo o uso de copos e garrafas plásticas);
  • Caminhe pequenos trechos a pé;
  • Evite o uso de canudos, copos, talheres e pratos descartáveis;
  • Não desperdice alimentos, reutilizando-os, por exemplo, em compostagem;
  • Faça turismo sustentável;
  • Use coletor menstrual, evitando descarte enorme de absorventes;
  • Divulgue de forma acessível pesquisas e ações sobre esse tema;
  • Doe roupas, sapatos, bolsas, mochilas e acessórios.

… com carro e transportes:

  • Faça a manutenção veicular, pois, a falta de calibração do motor, por exemplo, aumenta a poluição do ar;
  • Troque o tipo de combustível ou vá de bicicleta, a pé, por transporte público ou carona.

… com o lixo:

  • Participe da coleta seletiva (de forma correta) e não jogue lixo na rua e sim no lixo;
  • Compacte embalagens para descartá-las (otimizando espaço dos caminhões de lixo e poupando combustível);
  • Ajude os catadores, especialmente se tratando da quarentena.

… nas suas compras de mercado e nas gerais:

  • Repense o seu consumo e use SEMPRE uma ecobag;
  • Apoie a permacultura e pequenos produtores em detrimento dos latifúndios;
  • Consuma menos carne bovina/suína (evita desmatamento e grande emissão de gases)
  • Compre a granel (cereais, grãos, macarrão, farinha, até café e azeite);
  • Use sacos de pano para as compras secas, potes de vidro para os úmidos ou em pó e garrafas para líquidos;
  • Compre de empresas que emitem menos gases de efeito estufa;
  • Prefira embalagens reutilizáveis/retornáveis ou a refil;
  • Use comprovantes digitais, pois os recibos geralmente não são recicláveis;
  • Compre roupas de segunda mão ou de marcas ecologicamente corretas;
  • Prefira móveis de madeira certificada.

… com papel:

  • Priorize livros usados a livros de primeira mão e caso o livro seja lançamento, priorize a versão digital à versão impressa;
  • Imprima só o necessário, usando os dois lados da folha, e as usadas, utilize como rascunho;
  • Dê preferência a receber correspondências por e-mail;
  • Recicle papel de forma caseira.

… na política e cidadania

  • Cobre políticas públicas;
  • Participe do e-cidadania e abaixo-assinados (change.org, por exemplo);
  • Fiscalize dados e cobre ativamente a divulgação deles;
  • Cobre a construção de aterros sanitários, substituindo lixões;
  • Olhe se os empresários que apoiam campanha do político X são latifundiários ou de grandes empresas antiecológicas;
  • Cobre do CONAR maior restrição de propagandas com crianças como público-alvo;
  • Cobre a reciclagem de lixo eletrônico;
  • Fiscalize a cobrança do descarte correto de lixo hospitalar;
  • Peça a realização de queimadas controladas para os órgãos responsáveis, evitando incêndios.

… nas empresas

  • Compre de empresas que tem preocupação com isso (olhar os selos, por exemplo);
  • Cobre as empresas que tem obrigação de reflorestar;
  • Cobre das empresas de mineração o uso de barragem a seco;
  • Na sua empresa ou escola, peça que se utilizem canecas pessoais e canudos de metal ao invés de copos de café e canudos normais;
  • Coloque a empresa em que você atua na coleta seletiva.

… por fim:

  • Participe de ONGs, coletivos e projetos sociais em prol da sustentabilidade, do engajamento social, da permacultura e da agrotecnologia consciente;
  • E entenda que se mobilizar é a única maneira para realmente evitar a mudança climática. ENGAJE-SE!

Como se engajar na agenda 2030?

Como a juventude pode potencializar a promoção e territorialização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Por Amanda da Cruz Costa

Chegou hoje? Não deixe de dar uma olhada nos textos:

Fala galeeera, belê? Chegamos no 5º encontro da nossa série.

Depois de tanto conhecimento teórico chegou a hora de arregaçar as mangas e colocar a mão na massa! Hoje vou apresentar algumas possibilidades de engajamento na Agenda 2030. Booooora juntinhes?

1. NÍVEL NACIONAL

Existem diveeeeersas organizações da sociedade civil que trabalham diretamente com a Agenda 2030, mas nesse texto quero falar sobre a minha experiência com organizações que possibilitam que jovens ocupem espaços de diálogo e de tomada de decisão. Espero do fundo do meu coração que após ler esse texto, você abrace uma causa e se posicione como uma liderança jovem que decidiu construir um futuro sustentável!

– Engajamundo 

A missão do Engaja é mostrar para o jovem brasileiro que se ele mudar ele mesmo, seu entorno e souber as ferramentas políticas, ele pode transformar sua realidade. Para tornar essa frase babadeira uma realidade, o Engajamundo desenvolve ações a partir de 3 níveis: local, nacional e internacional.

Local: Os núcleos locais (pessoal do mesmo estado) tem total liberdade para puxar ações de ativismo, reuniões com tomadores de decisão e formações em escolas públicas (Caminhos da Solução e Passo a passo do Advocacy).

Nacional: Existem 5 Grupos de Trabalho (carinhosamente apelidados de GT’s), que são espaços de discussão e co-criação online onde xófens ativistas das cinco regiões do Brasil trabalham para territorializar uma agenda da ONU. Os temas são ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), Clima, Biodiversidade, Cidades e Comunidades Sustentáveis e Gênero.

Internacional: Todos os anos o Engaja leva uma delegação de jovens para os espaços de discussão global. Tem a COP de Clima, a COP de Biodiversidade, o Fórum Político de Alto Nível, a CSW, Habitat etc.

– Crie seu projeto 

Se você tem um perfil empreendedor, essa opção é para você! Outra forma de se engajar na Agenda 2030 é criando um projeto individual, onde você possa transbordar assuntos relacionados a sua causa!

Depois de um tempo engajada nos debates sobre sustentabilidade, eu percebi que esses espaços eram ocupados majoritariamente por homens brancos héteros cis-gênero e VELHOS. Super absurdo, não é? Para mudar essa realidade, decidi criar o PerifaSustentavel, cuja missão é democratizar o conhecimento para as periferias de São Paulo.

Antes da pandemia, eu fazia workshops na minha comunidade a partir de três pilares-base:

  • Roda de conversa: “o que é o mundo ideal?”
  • Contextualização sobre a Agenda 2030;
  • Chamada para a ação: como NÓS podemos criar um mundo sustentável?

Como começar seu projeto:

  • Defina uma causa: a causa está vinculada com sua mensagem, é aquilo que queima em seu coração e te dá energia para alcançar o seu propósito. Se você sentir dificuldade em escolher uma causa, olhe para a Agenda 2030 e escolha 2 ou 3 objetivos. 
  • Networking de impacto: depois de definir sua causa, se aproxime de pessoas que têm objetivos semelhantes ao teu. Somos a média das 5 pessoas com quem mais nos relacionamos e, se queremos transformar nosso mundo, precisamos ficar perto de pessoas que estão comprometidas em deixar um futuro melhor para as próximas gerações.
  • Transborde: Agora que você já definiu sua causa e se aproximou de pessoas marabrilhosas, está na hora de agir! Desenvolva projetos, campanhas, ações pontuais… O importante é começar ?

2. NÍVEL INTERNACIONAL

Eu, como internacionalista arrasadora que sou, também quero apresentar duas organizações internacionais que estão mudando a realidade de diversaaaaas pessoas, utilizando o “pensar global, agir local” como estratégia principal.

– Youth Climate Leaders (YCL)

O Youth Climate Leaders é uma organização internacional que trabalha para capacitar, empoderar conectar 1 milhão de jovens profissionais do clima até 2030 [super ousadíssimos, amooooo], através de 3 pilares:

  • Jornadas de aprendizagem (Capacitação): Essas jornadas possuem o objetivo de colocar o jovem num ambiente de construção de uma sociedade justa e sustentável, impacto coletivo e transformações individuais, através de práticas de autoconhecimento que fornecem um panorama amplo sobre clima.
  • Networking global (Conexão): conexão com jovens de diversos países, mentores, facilitadores  e referências da área climática (Saiba mais sobre o Curso YCL Imersões Internacionais).
  • Oportunidade concretas (Empoderamento): acesso a oportunidades profissionais e de voluntariado, workshops exclusivos para a rede, ações locais (Hubs YCL) e delegações da ONU.

Para ficar ligadinhe:

O YCL está com uma oportunidade babadeira de engajamento! No dia 24 de novembro acontecerá o Dia do Profissional do Clima, uma maratona de 24h de streaming para capacitar e integrar jovens na carreira climática. Se jogaaaa!

– United People Global (UPG)

A UPG é uma comunidade internacional que tem a missão de “make the world a better place”, ou seja, “fazer o mundo um lugar melhor”. A organização nasceu com o objetivo de criar uma realidade de impacto, por via de 4 pilares:

  • Consciência: “É possível!” Mostra diferentes maneiras pelas quais as pessoas podem se engajar para tornar o mundo um lugar melhor. Ex: Ajudando as pessoas a entenderem e explorarem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.
  1. Crença: “Sim, podemos!” Aumenta a crença de que cada pessoa é capaz de causar impacto. Ex: Desenvolvendo e promovendo iniciativas que tornam o mundo um lugar melhor por meio de treinamentos e capacitações.
  2. Colaboração: “Vamos trabalhar juntos!” Fomento de iniciativas nas quais as pessoas podem trabalhar em conjunto, usando os ODS como base.
  3. Comunidade: “Você não está sozinho!” Promove um senso de comunidade entre pessoas de vários países que compartilham um mesmo senso de propósito: tornar o mundo um lugar melhor.

CURIOSIDADE:

Meu projeto PerifaSustentavel nasceu através da UPG Sustainability Leadership Program, uma capacitação internacional focada em liderança cidadã para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Se você tem ideias que podem transformar sua comunidade, entra na UPG! Caso queira saber mais sobre a minha experiência, leia esse artigo.

Querido leitor, te apresentei 4 opções lacradoras de engajamento na Agenda 2030. Me conta nos comentários qual deu match perfeito com o seu coração? ?

 

 

Amanda da Cruz Costa é colunista da Agência Jovem de Notícias.

A crise climática e os ‘agoras’: a crise do clima é a crise da água

Estamos na década internacional de ação pela água, mas falta muita coragem para caminhar minimamente em direção à universalização do direito universal de acesso à água e ao saneamento.

Por Igor Vieira

O problema não é a “natureza humana” que consome e desperdiça. Nossa cultura evidenciada e financiada historicamente por indústrias dos combustíveis fósseis está buscando sempre um depois, “qual a próxima área para desmatar”“qual a próxima tecnologia imperdível”“quem será que garantirá o próximo bilhão”. Em contrapartida, somos deixados com o agora e ele se desdobra em muitos outros.

Os ‘agoras’ são fundamentais para que a gente trate a questão da água na seriedade com que ela precisa ser tratada quando o assunto é a crise do clima.

A questão não é só que estamos indo muito rápido. A crise climática pode ser vista em situações locais e cotidianas, muitas vezes endêmicas: uma espécie de planta que floresceu antes de sua época, o regime de chuvas em uma região que atrasou dois meses – e para observar isso é necessário ter uma relação íntima com a área e isso passa despercebido quando lidamos com uma coisa como a água, que é fundamental para nossa existência e que precisamos ter todo dia a todo custo em nossas vidas diárias e só sentimos o impacto em períodos de escassez publicizada.

Brasil perdeu 37% da água tratada para consumo só em 2013 / Foto: Tânia Rêgo | Agência Brasil

Protegidos por nossas rotinas em nossas casas, locais de trabalho, carros, ônibus e  vivendo nossas vidas, não vemos a vida passar como ela de fato é nos ambientais naturais e nas rotinas dos serviços básicos que dependem do seu equilíbrio para manter essa falsa proteção: não notamos as secas que diminuem a disponibilidade de água que chega na estação de tratamento para garantir a potabilidade do elemento essencial que consumimos, por exemplo.

Fomos treinados pelo sistema para ignorar, e, dentro do universo ambientalista que lida com a crise climática, como as COP’s, por exemplo, somos sempre tirados do foco da água. A razão? O valor econômico.

Em todos os espaços de tomada de decisão, discussão e debate sobre as mudanças do clima, fala-se de florestas, de uso do solo, de segurança alimentar, de perdas e danos e de eventos climáticos extremos e, a todo momento, parece que se opta por ignorar que a água é um fator transversal a todos eles.

Parecem ignorar que as florestas geram água e que a água muda a dinâmica dos solos, assegura um caminho essencial para a segurança alimentar, tem relação direta com financiamento e que todo evento climático extremo parece ter relação com ela: enchentes, secas, furacões, tsunamis e incontáveis outros.

Por que será que as conferências de clima não desenvolvem tanto a questão do acesso a água e saneamento como o faz em relação às florestas, enquanto as discussões “diplomáticas” de água acontecem num fórum financiado por grandes corporações cujas inscrições são caríssimas?

Bem, se você tem o mínimo de bom senso, percebeu que a resposta para a minha pergunta está nela mesma.

Ainda se tem medo de falar sobre água e saneamento porque isso envolve muito dinheiro e muitas corporações, mesmo que ela seja um direito humano fundamental. O valor agregado a esse recurso natural é gigantesco e faz com que as discussões sejam tímidas e insuficientes em espaços de tomada de decisão.

Brasil tem dificuldades de acesso e distribuição de água – reprodução Instituto Trata Brasil

Criou-se um Objetivo do Desenvolvimento Sustentável só pra água e saneamento e espera-se que sejam asseguradas a disponibilidade e a gestão sustentável da água e saneamento para todas e todos até 2030, enquanto 2 bilhões de pessoas no mundo ainda não têm acesso à água potável e outros 4 bilhões não possuem saneamento segundo o Relatório Mundial de Água e Desenvolvimento.

O mesmo relatório enfatiza que três são os campos de ação em nível de cidadania: capacitar pessoas no processo de adaptação à crise climáticaaumentar a resiliência dos meios de subsistência e, por fim, reduzir os agentes provocadores das mudanças do clima. Isso tudo para reduzir a insegurança hídrica e as mudanças do clima, que são, conjuntamente, as maiores crises que a humanidade já enfrentou e continuará desenvolvendo formas de lidar nos próximos anos.

Como alguém que tem o privilégio do acesso a espaços de tomada de decisão e compreensão dos acordos internacionais de clima, me preocupa que a questão dos recursos hídricos quase não apareça nesses espaços (tenta pesquisar “water” no Acordo de Paris).

A adesão ao acordo não quer dizer nada quando mantemos as ambições baixas e seguimos com ações tímidas para controlar a crise climática, que é hídrica. O caminho para a solução da crise climática precisa levar em consideração a sustentabilidade hídrica, e não estou falando da sustentabilidade do mercado verde que ama usar os ODS para explorar recursos naturais.

Falo da sustentabilidade em sua essência: que reconhece a questão, que busca alternativas baseadas na natureza para resolvê-la e, mais importante, usa exemplos de sucesso na gestão de recursos naturais para replicar onde for possível.

Comunidades no semiárido brasileiro têm feito isso, comunidades no sertão nordestino têm feito isso, comunidades quilombolas têm feito isso, povos indígenas e tradicionais têm feito isso.

Parece ser muito difícil colocá-los na linha de frente da solução dos seus próprios problemas, ou será que assim não é possível criar uma estratégia política que favorece grandes empresas e mantém as coisas como estão: com as pessoas em vulnerabilidade precisando de ajuda e “bons samaritanos” as ajudando para sempre.

Estamos na década internacional de ação pela água, mas falta muita coragem para caminhar minimamente em direção à universalização do acesso à água e ao saneamento.

Isso ficou ainda mais claro com a pandemia do COVID-19 e, no caso brasileiro, também com o novo marco do saneamento. Ambos escancararam a realidade das pessoas que estão sofrendo e sofrerão enquanto não se garantir o acesso a um direito humano fundamental como a água.

Fica muito claro quem são essas pessoas e mais claro ainda que quem toma as decisões não as consideram porque, na lógica da dinâmica das coisas, os mesmos indivíduos mais impactados pela crise climática são também os mais afetados pelo COVID e, no Brasil, estão mais suscetíveis às consequências negativas do novo marco regulatório do saneamento.

Mundialmente falando, uso da água dobrou no último século e esse consumo está aumentando a cada ano – não à toa, a cada ano quebramos recordes de temperatura global e, ainda, de emissões.

Ao mesmo tempo, o IPCC –  Painel Intergovernamental sobre as Mudanças do Clima – deixa claro que a crise climática junto à nova frequência intensa de eventos extremos como tempestades, enchentes e secas estão agravando a situação nas nações que já vivem sob stress hídrico, e que esse padrão de stress vai começar a ser visto em regiões que, até o momento, ainda não sofreram com essa questão.

A pergunta que fica é: com este cenário, quando os tomadores de decisão vão tratar a água e o saneamento com a responsabilidade devida?

Mais: quando as Nações Unidas vão ter a coragem de inserir discussões sobre água mais profundas nas conferências de clima e abordá-las em tratados internacionais com mais eficiência? Espero ver uma resposta para isso nos próximos anos.Para solucionar a crise climática, precisamos de uma mudança sistemática começando de agora, e, para isso, é importante compreender que, embora a água tenha um valor financeiro, ela não é e jamais será mercadoria. Direito não se vende. Água é Clima.

Igor Vieira é colunista da Agência Jovem de Notícias.

A Agenda 2030 é uma agenda racista?

A Agenda 2030 é uma agenda universal, integrada e indivisível. No entanto, precisamos sair da superficialidade e analisar com olhar crítico e questionador.

Por Amanda Costa

Olá querides! Como vocês estão?

Se você acompanha meus textos aqui na Agência Jovem de Notícias, já descobriu como a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável foi criada e sabe que os 17 ODS não são um sonho utópico. No entanto, quero abordar um tema polêmico:

você acha que a Agenda 2030 é racista?

Apesar de ter contado com a participação dos 193 países membros da ONU, nenhum dos objetivos da Agenda contemplam a questão racial na sua integralidade e dinamismo. Há planos para promover a igualdade de gênero, erradicar a pobreza, reduzir as desigualdades, combater a crise climática mas não há NENHUM objetivo específico que trace caminhos universais de combate ao racismo estrutural.

Eu, enquanto mulher preta e periférica, pesquisadora da Agenda 2030,  senti que estava na hora de levantar essa questão e convidá-los à reflexão. 

A Agenda 2030 é uma agenda universal, integrada e indivisível, que tem o lema de não deixar ninguém para trás.” No entanto, precisamos sair da superficialidade da branquitude e analisar essa agenda com um olhar crítico e questionador.

Assim que os ODS foram anunciados pelos países, percebemos que outra vez as mulheres negras e os grupos vulneráveis estavam de fora desse debate. (…) Vimos que era necessário que novamente as mulheres negras tomassem rédeas desse processo. –Lúcia Xavier, coordenadora do Criola

Apesar das falhas estruturais da Agenda 2030, houve iniciativas das Nações Unidas para mitigar esse câncer social. Um exemplo foi a parceria do Comitê Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030 com a ONU Mulheres Brasil, com o intuito de apoiar estratégias de inclusão de mulher negras em espaços de debate nacional.

Para que essa agenda se afine um pouco mais é preciso divulgar não somente os ODS, mas as possibilidades de incorporação das mulheres negras nesse processo. Talvez a maneira mais concreta de fazer isso seja (…) olhar os ODS como uma oportunidade e enegrecê-los a ponto de poderem dar resposta às condições da população negra e das mulheres negras. – Lúcia Xavier – coordenadora do Criola

A inclusão da mulher preta nos debates globais é imprescindível para a implementação dos 17 Objetivos e das 169 Metas da Agenda 2030. Não podemos ignorar que a ideologia de dominação brancocêntrica foi pulverizada em TODAS as estruturas sociais!

A mulher preta traz uma visão completamente diferente da visão eurocêntrica, possibilitando outros caminhos e soluções inovadoras para os desafios econômicos, sociais e ambientais presentes em nosso planeta.

Querides, sei que algumas pessoas se sentirão desconfortáveis com meus questionamentos. Contudo, temos opções:

  • Concordar com um sistema racista, machista, classista e opressor ou
  • Olhar para a estrutura social existente e desafiar o status quo.

Não quero falar da Agenda 2030 de forma rasa, mas escolho promover reflexões críticas com profundidade e interseccionalidades. O racismo não é um problema meu, é um problema nosso. Nosso engajamento moldará o mundo que deixaremos para as próximas gerações.

Não somos o futuro, somos o agora! – Hamangai Kariri Sapuya

Fonte: Mulheres negras destacam papel dos objetivos globais na eliminação do racismo

Amanda Costa é colunista da Agência Jovem de Notícias

Sobre Racismo ambiental

Pesquisa realizada nos Estados Unidos comprova que as mudanças climáticas estão impactando a vida das mulheres grávidas, principalmente negras.

Por Gabriela Baesse

Os impactos das mudanças climáticas estão sendo sentidos por cada um de nós em todos os lugares do mundo, algumas vezes de formas mais concretas como a falta de águachuvas intensasaumento da temperatura (o termômetro chegou a 38º na Sibéria semana passada!), poluição do arelevação do nível do mar e também de forma sútil, como com o uso excessivo de agrotóxicos e na nossa saúde.

Essas consequências são vividas de diferentes formas. Afinal de contas, cada um tem uma realidade própria que vai impactar na sua visão de mundo e nas dificuldades que enfrenta ao longo da vida. Alguns fatores que afetam isso são: o lugar em que você nasceu (cidade ou campo, centro ou periferia), seu gênero (homem ou mulher, trans ou cis), sua identificação étnico-racial (indígena, negro, branco ou amarelo), sua condição financeira e por aí vai.

Uma pesquisa saída agora do forno (publicada no dia 18 de junho de 2020) na JAMA Network, mostrou que as mudanças climáticas têm um impacto negativo para as gestantes e seus bebês. Com a revisão de vários estudos sobre o tema, foi possível observar mais de 32 milhões de nascimentos nos EUA, e o que eles revelaram? Que mulheres sujeitas a poluição do ar e expostas a temperaturas mais altas, têm mais chance de terem bebês prematuros, com baixo peso e natimortos (morte do feto após 20 semanas de gestação).

O trabalho também mostra que essas piores condições de saúde têm cor e endereço: afetam principalmente mulheres negras e periféricas. É mais um fator que desampara quem já está em uma situação de maior vulnerabilidade.

Trabalhadoras em Moçambique, África. Foto: Paula Santoro.

Além de terem piores condições socioeconômicas, as mulheres negras têm mais dificuldade para acessar serviços de saúdeassistência pré-natal, ao partosofrem mais violência obstétrica do que brancas, e segundo o Ministério da Saúde do Brasil (2018) mais de 60% das mulheres mortas durante o parto são negras.

Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna e a Vida das Jovens Negras / Foto: Reprodução – Jornal Comunicação UFPR

Como vimos, a discriminação racial está presente na saúde, mas igualmente na política ambiental e isso tem nome: racismo ambiental. Ele faz com que a população negra (e outros grupos étnico-raciais, como os indígenas) sofram os efeitos mais indignos da degradação ambiental.

Brasília – Índios do Xingu fazem protesto durante coletiva da presidenta do Ibama, Marilene Ramos, sobre o enchimento do reservatório da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Quanto mais esmiuçamos o assunto, mas vemos que a discriminação racial está em todos os lugares; ela pode ter uma roupagem mais direta, com crimes de ódio ou xingamentos, mas pode vir tentando se disfarçar, como através de abordagens mais violentas de polícias contra pessoas negras (João Pedro, presente! Agatha, presente!) e a falta de pessoas negras e indígenas em cargos de chefia ou nas universidades.

A pesquisa também traz à tona a questão de gênero, reforçando que as mulheres são as mais afetadas pelas mudanças climáticas, apesar de serem quem menos contribui para isso, tendo em vista que as desigualdades econômicas fazem com que menos mulheres tenham um consumo que impacte nas mudanças climáticas.

Nós mulheres, enfrentamos desafios particulares na crise ambiental.

Além da questão reprodutiva, mulheres estão mais propensas a morrer em desastres ambientais, têm menor controle e acesso a recursos vitais como água, energia e moradia e somos menos representadas nas políticas públicas.

Atualmente o congresso federal brasileiro tem apenas 15,15% de mulheres e apenas 2,69% de mulheres negras, pardas ou indígenas. Como os problemas das mulheres, negras e indígenas vão ser pauta prioritária se o poder ainda está concentrado em homens brancos, velhos e cisgênero?

Para isso, precisamos de mais espaços para a participação ampla de toda sociedade, é urgente fornecer condições para termos cada vez mais mulheres, negras, indígenas e jovens participando da política, ocupando espaços de liderança em organizações públicas e privadas e tomando as decisões.

A pesquisa apresentada faz refletir sobre diversas temáticas como mudanças climáticas, saúde, gênero e raça. Como vimos no início, cada experiência é única, por isso precisamos assegurar a pluralidade de visões e você pode contribuir para isso ouvindo, divulgando e defendendo os direitos das gestantes, mulheres, negras e indígenas.

Gabriela Baesse é colunista da Agência Jovem de Notícias

Imagem destacada: Canal Preto / Reprodução Youtube

A Agenda 2030 é um sonho utópico?

Ainda faz sentido seguir os direcionamentos da Agenda 2030 para um futuro sustentável? Discutir essa agenda é entender as medidas que podemos adotar para mitigar a desigualdade

Por Amanda Costa

Oláaaa meus xôfens engajados, como vocês estão?

No último mês conversamos sobre a Agenda 2030, a Agenda para o Desenvolvimento Sustentável da ONU. Contudo, é beeeeem utópico falar sobre o “mundo ideal” quando estamos vivenciando um cenário tãaaao desesperador, não é mesmo?

São tantas coisas que não dá nem para escolher: é crush que visualiza e não responde, uma pandemia que já matou mais de 400k pessoas, as espinhas que surgem em partes inconvenientes do corpo, um movimento antirracista global, o desafio de encontrar um job com propósito e uma crise política profunda nos governos federal, estaduais e municipais do Brasil.

Com toda essa loucura, cabe o questionamento: será que ainda faz sentido seguir os direcionamentos da Agenda 2030 para alcançar um futuro sustentável?

Querides, esse momento me fez repensar em toda a minha vida: relações familiares e de amizade, trabalho, estudos e consequentemente a Agenda 2030, minha temática de pesquisa.

Acredito que, se queremos viver com paixão, precisamos revisitar nossos valores com frequência. Além de questionar os espaços que ocupamos, precisamos desenvolver práticas colaborativas e inclusivas, que tenham como um dos objetivos principais incluir os que estão à margem do sistema social. Um dos lemas da Agenda 2030 é “não deixar ninguém para trás”, o que significa ampliar esse discurso e dialogar com diferentes públicos.

Discutir a Agenda de Sustentabilidade é, na verdade, entender as medidas que podemos adotar para mitigar a desigualdade social! Por muito tempo os assuntos sobre meio ambiente e sustentabilidade adquiriram um caráter elitista, correspondendo a um sistema privatista e individualista.

No entanto, está na hora de criticar esse modelo e repensar a subjetividade econômica. Precisamos quebrar a lógica neoliberal que gera culpa e paralisia e transitar para um modelo social mais diverso, aberto e HUMANO.

Atualmente vivemos num sistema capitalista de supremacia branca, fundamentado em dois pilares: disputa e competição. Esse sistema utiliza a agressividade, a exploração e a narrativa do herói para conquistar oportunidades e ampliar domínios.

“O modelo de capitalismo explora e impulsiona ativamente crenças sexistas tradicionais que desempoderam negros, mulheres, homossexuais e povos originários que estão à margem do sistema social dominante.” Frase adaptada do Relatório Tempo de Cuidar, Oxfam Brasil, 2020

A construção de um mundo mais igualitário só será possível com mudanças sistêmicas, que valorizem a diversidade dos tipos de trabalho, sejam eles remunerados ou não. O atual crescimento desenfreado é insustentável e impossibilita que vivamos dentro dos limites ambientais do planeta. Portanto, devemos cessar a busca irrefreável pela riqueza e pelo lucro e valorizar uma ECONOMIA HUMANA!

Pessu, estamos enfrentando uma convergência de crises econômica, social e ambiental, o que nos permite fazer uma mudança integral e global. Booooora utilizar esse momento para nos apropriar dos mecanismos de transformação social?!

Você acredita que as pessoas e o planeta podem prosperar em equilíbrio? ?

Sei que parece utópico, mas é possível simmmm! A economista inglesa Kate Raworth sistematizou um novelo modelo, conhecido como Donut (ou rosquinha, para os brazukas). Esse modelo já está sendo aplicado em muito lugares, como em Amsterdã, na Holanda.

Kate defende uma transição da economia do Séc. XX para a economia do Séc. XXI, no qual o PIB, um índice finito, seria substituído por uma rosquinha que relaciona as necessidades humanas com o impacto ambiental da economia na sociedade e na Terra como ente vivo.

O alicerce social do Donut é baseado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e determina os requisitos mínimos que cada ser humano tem necessidade. O teto ecológico do Donut compreende 9 limites planetários que identificam os sistemas críticos de suporte à vida. Confira abaixo:

Precisamos internalizar que “a economia existe para respeitar a vida!”

Somos a primeira geração a saber que estamos usando os recursos do planeta antes que ele consiga se regenerar, o que nos coloca num lugar de imenso privilégioconduzir uma transição rumo a um futuro que respeite os limites do planeta. Se os Estados, a sociedade civil e as empresas trabalharem em conjunto poderemos construir uma sociedade economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente sustentável!

“Já imaginou se a nossa geração fosse a geração da virada que colocasse a humanidade nos trilhos do planeta?” – Carol Busatto

Bora colocar energia num sistema que valoriza a vida!

Se não nós, quem? Se não agora, quando? Nós somos parte da solução!

Amanda Costa é colunista da Agência Jovem de Notícias

 

 

 

A dificuldade de se mensurar a crise climática

Desde a ECO-92, muitos planos caminham junto com a gritante falta de ação efetiva para medir e conter os danos da crise climática. Por que as respostas são sempre insuficientes?

Por Igor Vieira

Já faz muito tempo desde que engravatados e entusiastas por uma nova era se reuniram no Rio em 1992 para pensar num novo acordo que trouxesse compromisso das nações através da convenção do clima das Nações Unidas.

Se o objetivo era evitar o que eles mesmos chamavam de interferência humana no sistema climático, faltam muitas reuniões que gerem ação.

Com o passar dos anos, essa gana deveria ter ficado mais forte – O cenário todos já conhecem: aquecimento, migrações, exploração de recursos naturais, colapsos socioambientais, populações em vulnerabilidade, eventos climáticos extremos, essa lista seguiram facilmente. A ciência que liga a crise climática a esses fatores é precisa e fala que as coisas tendem a piorar.

De certa forma, parece que o mundo está preparado para a tarefa que precisa ser executada. Existe a opção das energias renováveis, novas formas de pensar mobilidade urbana, formas diferentes de distribuir água e garantir seu acesso – em processos que viabilizem a descarbonização¹.

O que tem faltado é que os tomadores de decisão e formadores de políticas usem suas ferramentas para promover mudanças reaistaxem impostos sobre o carbonoregulamentem e, sanem uma dívida histórica que os grandes poluidores possuem com países em desenvolvimento, que são os mais afetados pela crise.

Mesmo com tudo isso sendo óbvio (para alguns), países e chefes de estado se reúnem ano após ano nas conferências de clima, se reencontram, discutem, tiram bonitas fotos e falam do compromisso de todos e não os levam a sério. Temos um problema óbvio, um desespero que só cresce, muita coisa em risco e soluções adequadas sendo sugeridas o tempo inteiro, principalmente por jovens e representantes dos povos originários e tradicionais. Ainda assim, por que a resposta é sempre insuficiente?

Para além do grande motivo óbvio: o lobby rico e extraordinário das grandes corporações poluidoras e detentoras de grande parte da economia global que escolhem como vão alertar sobre a crise climática e, em sua maioria, sequer o fazem. Alimentando um sistema de protagonistas e antagonistas que tem de um lado as indústrias de combustíveis fósseis com todo o dinheiro e do outro lado da balança todo o resto, que ainda assim, não parece ter peso para combater essa cultura dos fósseis que rejeita as evidências.

Existe outro ponto para se levar em consideração: o mundo não tem a mínima noção de como lidar com um problema tão complexo como a crise climática e nem as instituições que lutam para combatê-la fazem suas ações com completa certeza. A crise climática é um vilão invisível que se dissipa na diversidade de seus efeitos ao redor do mundo, fazendo com que seja cada vez mais difícil nomear e endereçar os problemas complexos causados pela dinâmica devastadora imposta por ela.

Os danos causados pela crise climática são diretamente sentidos por pobres, países pobres e pessoas em vulnerabilidade e isso, mais uma vez, retroalimenta o cenário de protagonistas e antagonistas criado pela indústria dos fósseis.

Se historicamente pobres sempre sofreram, quem tem dinheiro, em sua grande maioria não se importa com isso.

Os grandes empresários que taxam os barris de petróleo e a família que precisou se deslocar para morar em um novo país, muitas vezes de forma ilegal, para ter acesso à água não se conhecem – tenha certeza disso, mas os ativistas climáticos sabem que essa taxação e essa manutenção da forma de viver é injusta, só não conseguiram ainda uma forma adequada de trazer essas pessoas afetadas para a luta e colocá-las como reais protagonistas no combate à crise climática. O motivo? A sobrevivência é mais urgente.

O coletivo não é prioridade para quem sente na pele as marcas das consequências trazidas pelas alterações do clima.

A dificuldade de se mensurar a crise climática é exatamente essa: ela está difusa por todas as partes do mundo causando problemas ambientais que refletem na saúde, na moradia, no transporte, no bem estar e que por isso, se camuflam nos problemas históricos de como a sociedade tem vivido até então.

O denominador comum da crise climática é o modelo de desenvolvimento predatório que criamos e nos tornamos viciados, e que se maquia em nuances. Não é como a pandemia do COVID-19 que estamos vivendo, por exemplo, que sabemos exatamente o que está causando e mais importante, sabemos o que é necessário para combatê-lo: uma vacina. A crise climática não será resolvida com uma vacina, ela precisa ser combatida com um conjunto de ações que repensem a forma como construímos tudo até então e coloque a sociedade mundial em posição de refazer isso.

Não existe mais um jeito normal de viver, é preciso encontrar o novo normal, e não é uma pandemia que nos dará isso.

Enquanto não considerarmos que isso é uma necessidade, os que estão em melhores situações vão continuar se adaptando mais rapidamente às mudanças do clima do que os mais vulneráveis, que vão seguir sem ter motivos para criar mudanças sistemáticas. O crescimento não deve ser renunciado, ele precisa ser revisto para uma forma que seja de fato sustentável e não mascare exploração e manutenção desse sistema com objetivos coloridos e utópicos para quem não tem acesso a recursos e, principalmente a medidas de financiamento climático².

Sem políticas para disseminar alternativas para quem de fato precisa se adaptar com urgência, a inovação que tanto se fala vai ser inútil.

Tecnologia precisa ser utilizada, mas, as nuances de quem de fato sabe viver em equilíbrio precisa ser o combustível nessa jornada de mudanças. Considerar soluções baseadas na natureza com os povos originários é por si só uma importante forma de inovar e, principalmente, diminuir a resistência em relação às políticas combativas à crise climática.

Os efeitos da crise climática são, a esse ponto, quase que previsíveis, enquanto que as soluções jamais o serão. Essa diversidade para a mensuração da crise climática nos coloca em uma situação de ter esperança que a partir de agora: a cooperação como nunca se viu antes precisa começar a agir para reorganizar de forma radical o mundo.

Olhar o mundo de novo e enxergar onde estão os recursosplanejar a produção de alimentos e energia em torno disso e em torno das populações. Nesta geração e na forma como vivemos agora mesmo estamos criando o clima para o planeta do futuro; por mais utópico que pareça atingir as metas de emissão, vai ser muito mais difícil se esse problema ficar para as próximas gerações. Com cooperação, ousadia e não deixando ninguém para trás conseguiremos fazê-lo.

Igor Vieira é colunista da AJN. Texto originalmente publicado na Agência Jovem em 18 de junho de 2020. 

Para entender a urgência da crise climática

A crise climática não é sobre temperatura, a crise climática é essencialmente sobre gente. Pra fazer o que precisa ser feito, é necessário estabelecer metas transformadoras.

Por Igor Vieira

A crise climática não é sobre temperatura, ainda assim, no mundo inteiro continua a ser tratada como um assunto exclusivo de aquecimento e derretimento de geleiras quando, na verdade, a crise climática é essencialmente sobre gente. Esta crise, que chamo de transversal, serve como um lembrete de que pra fazer todo o trabalho que precisa ser feito, é necessário apertar bem os cintos e estabelecer metas ambiciosas e transformadoras.

Quando falamos sobre resolver a crise climática, falamos sobre integridade e franqueza, da forma mais dura e combativa: transformar tudo que existe e adaptar a forma que se vive no planeta. Em palavras miúdas, pressionar o planeta com as emissões de carbono no ritmo que temos vai continuar a nos colocar em cenários irreversíveis que obrigarão a humanidade a se adaptar até chegar num ponto impossível de se controlar. Eis aqui a grande crise para as pessoas.

Há quase duas décadas o mundo começou a apresentar certa esperança com acordos climáticos propostos. Anos se passaram e o planeta se encontra numa grande crise política que entrava a ação de políticas efetivas de participação social e mudança sistemática na forma que se lida socioeconomicamente com o meio ambiente. Por trás disso, há interesses poderosos de indústrias, como a dos combustíveis fósseis que historicamente vem financiando campanhas de ofuscamento e incentivo à descrença a crise climática.

A maior parte da sociedade global ainda olha para tudo o que tem acesso, vivem e sentem em relação ao clima de forma não prioritária porque, na maior parte do tempo, há um confronto com projetos que esfregam nas nossas caras que existem problemas mais graves e que precisam de mais atenção individual para resolvê-los, nos tirando do foco do problema real e nos separando da consciência de que a crise climática perpassa pela existência humana.

A urgência das pessoas é sobreviver

Enquanto isso, refugiados, famílias pelo mundo inteiro retiradas de suas casas, populações em periferias urbanaspovos origináriospovos indígenas, estão em grande vulnerabilidade e são as pessoas mais atingidas pela crise climática. Esses são os verdadeiros rostos da crise e não possuem tempo para disse-me-disse de quem é o culpado por tudo isso e quem cobra sem apontar soluções.

A urgência das pessoas é sobreviver. É o instinto natural primeiro da humanidade, a sobrevivência, e é por ela que pessoa em situação de vulnerabilidade tem lutado nas últimas décadas. A crise climática é, portanto, um dos sintomas da desconexão que criamos com o nosso modelo de desenvolvimento que engole as pessoas e explora os recursos naturais de forma desenfreada.

Quando pensamos em resolver o problema sem atacar o predador, vamos continuar fazendo adaptação e mitigação por fazer e assim, nunca vamos atingir o coração do monstro.

As diversas camadas e nuances da crise climática

Há uma especificidade sobre a crise climática: a diversidade de camadas e nuances na forma em que ela se apresenta. As mudanças do clima como uma dessas camadas neste cenário de crise podem catalisar formas de participação política, social e econômica. A sociedade global tem passado por choques tremendos causados por desarranjos econômicos, desastres naturais associados a efeitos climáticos extremos, invasões territoriais e até guerras.

Historicamente, as diferentes sociedades encontraram formas de se recuperar desses eventos perturbadores e temos todos os sinais entregues de que com a crise climática não vai ser diferente. O que difere aqui é que (pra população comum) é difícil mensurar exatamente de onde vem ou o que está por trás da crise climática.

É quase que um inimigo invisível: a guerras possuem uma motivação, invasões de território vem com alguém por trás, desastres naturais têm uma causa. Porém não há um só diagnóstico para a causa da crise climática e isso faz com que a crise de pessoas se intensifique. Fica difícil lutar contra ela num sistema que te confunde o tempo todo sobre as causas reais e quando o conhecimento científico que a comprova não é traduzido de forma acessível para os mais afetados.

A dificuldade de tornar a ciência do clima acessível à base aumenta a dificuldade de participação popular no processo de construção de mudança de paradigma. É necessário trazer a diversidade de quem está na linha de frente para solucionar problemas que acontecem todos os dias, por todos os lugares com gente comum como você e eu.

Para além dos acordos internacionais, é preciso identificar a importância das pessoas, colocando-as como parte resolutora dos problemas causados pela crise. Isso já está acontecendo on ground em vários lugares do mundo, de forma orgânica através do já falado instinto de sobrevivência humana, entretanto, isso precisa começar a ser colocado em consideração nos espaços de tomada de decisão formais pelo mundo todo.

Pessoas como agentes de transformação e impacto recebendo recursos de quem inflamou/inflama a crise climática para pôr em prática, por meio de suas culturas e nuances, soluções para os problemas causados pela alteração do clima – Quem polui e destrói tem a obrigação de investir na solução da crise.

É hora de combater o sistema

É tempo de considerar a atuação no combate ao sistema que gerou a crise climática atropelando pessoas, considerar a atuação numa direção que acreditamos sem responder ou perder tempo com a comunicação violenta que nos provoca diariamente.

Articular pessoas para que conheçam mais sobre advocacy*, mobilizando estratégias que furem a bolha ambientalista que vivemos com inovação. É tempo de considerar escuta, de valorizar o caminho que chegamos e mudar o que entendemos como sustentável. Isso tudo porque quem está no contra fluxo do sistema também faz mobilização social, e precisamos disso para construir uma nova economia que gere justiça climática.

Em termos de história do planeta todos os marcos ambientais, principalmente os negativos, foram associados à transformação econômica. É tempo de trabalhar novas formas de comunicar e fazer advocacy, tornando palpável a ideia dessa nova forma de viver o mundo com pontos de convergência que priorizem a pauta socioambiental. Assim estaremos priorizando as pessoas e levando todos e todas junto.

*Advocacy – Prática de cidadania ativa, consiste em argumentar e defender causas, objetivos e/ou direitos. Podendo em muitos casos influenciar a criação/ajuste de políticas públicas e tomadas de decisão. O exercício do advocacy pode auxiliar de forma direta na diminuição de desigualdades e injustiças promovendo mudanças sistemáticas.

Igor Vieira é pernambucano, engenheiro ambiental, especialista em oceanografia e mestre em engenharia ambiental. Articula sobre mudanças climáticas, pesquisador de água e saneamento. Atualmente é coordenador regional no WIL Brasil by Waterlution.

Imagem: Fridays For Future

Epidemia mundial mais letal que o coronavírus explode no mundo

Esta outra epidemia, só ano passado, levou a morte de mais de 7 milhões de pessoas ao redor do mundo

Cientistas do mundo todo alertaram na segunda-feira, 16 de março, que além da epidemia causada pelo coronavírus, um vírus letal também está se mostrando uma grande ameaça a vida humana, gerando um alto número de pessoas afetadas e mortes em larga escala no mundo inteiro. Já existem registros dele em todos os continentes, incluindo a Antártica. Conforme seus efeitos se estenderem ao longo do tempo, afetará a economia mundial e intensificará ainda mais a pobreza. Assim como o coronavírus, trata-se de mais um caso de epidemia mundial.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que a situação é grave. Sete milhões de pessoas no mundo morrem por ano devido a poluição atmosférica, um de seus efeitos, bem como já se estima que mais 250 mil mortes ocorrerão por alguns de seus outros sintomas, como diarreia, desnutrição e até mesmo a transmissão de doenças tropicais, como a malária. A OMS também estima que essa epidemia leve 100 milhões de pessoas à pobreza extrema até 2030, bem como é estimado que 143 milhões de pessoas sejam obrigadas a migrar de suas terras por conta de seus efeitos.

Embora a existência desse vírus seja misteriosa para a maior parte da população e sua emergência ainda seja negada, ele não é tão desconhecido assim para 99% dos cientistas do mundo inteiro, que alertam há anos para seus efeitos. Há um tempo ele era conhecido como “mudanças climáticas”, e, atualmente, por ter chegado num nível de gravidade ainda mais complexa, configura-se como uma crise climática.

A crise climática afeta todas as formas de vida, sobretudo a espécie humana. Dados científicos comprovam que ela afeta os grupos de pessoas mais vulneráveis na sociedade. Nas cidades, as periferias e zonas com menor investimento em políticas públicas serão as mais afetadas e prejudicadas. Além disso, também é uma questão de gênero e cor. A Organização das Nações Unidas (ONU) alerta para o dado impactante de que  mulheres, negros e populações tradicionais são os grupos mais marginalizados na sociedade, respectivamente pelo sistema patriarcal e racista, e por isso acabam sendo mais suscetíveis às degradações ambientais. Um estudo mostra, por exemplo, que 80% das pessoas removidas de suas casas pelos efeitos da crise climática são mulheres.

Os cientistas alertam que ele é causado pela liberação massiva de determinados gases e poluentes, que são retidos na atmosfera e causam o aquecimento global. Em seguida, uma série de efeitos em cadeia ocorrem e afetam desde as grandes geleiras, até as cidades e florestas. Como a crise climática é um enorme risco global e sistêmico que se espalhará mais intensamente dentro das próximas décadas – e até mesmo séculos -, inúmeros eventos e mudanças meteorológicas atípicas ocorrerão. É preciso investir em estratégias de adaptação e mitigação de seus efeitos antes que a maior parte da população mundial sofra ainda mais.

No Brasil

O território brasileiro não está fora da lista dos países responsáveis e afetados pela ocorrência da crise climática. O ano de 2019 foi o mais quente já registrado no Brasil, com uma média de temperatura máxima (diurna) de 31,05 graus Celsius (ºC), de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMt). Algumas cidades chegaram a atingir 43,5ºC de temperatura no mês de julho de 2019, como é o caso de Poxoréu, no interior do Mato Grosso do Sul. Para a ciência, já é um fato que a temperatura média do Brasil está aumentando a cada ano, o que agrava as recorrentes catástrofes ambientais no país, como os temporais sem precedentes em algumas partes do Brasil e intensas secas em outras, o que pode comprometer até mesmo a produção de alimentos, em especial no Nordeste.

É importante que a população seja mais informada sobre os efeitos dessa epidemia em suas regiões. No início do ano, o Sudeste do Brasil, por exemplo, foi alertado que sua estação mais esperada, o verão, seria menos quente e com chuvas mais intensas e pontuais. Os temporais vieram com força nessa temporada, e, por falta de políticas públicas adequadas e o preparo para lidar com as grandes chuvas, pelo menos 140 pessoas tiveram suas vidas tiradas e mais de 4.400 ficaram desabrigadas em um dos grandes temporais.

A previsão é de que nos próximos anos, o vírus sofra ainda mais mutações e gere efeitos ainda mais dolorosos. Para o Brasil, estudos sobre as mutações dizem que o  aumento do nível do mar será ainda mais marcante até 2050 e isso afetará com força o país, que possui uma grande extensão de faixa litorânea – com cerca de 8.500km² – e 22,6% da população vivendo próximo a costa. Isso pode gerar consequências bastante profundas, afetando principalmente a economia local e a forma de vida das pessoas. Com o aumento do nível do mar, as populações costeiras serão obrigadas a migrar de suas casas e buscar uma nova forma de sustento, já que muitas dependem da pesca e afins para sobreviver. As consequências ambientais também serão sentidas, ao que afetará drasticamente o ecossistema, impactando diretamente os biomas e as espécies que habitam lá.

Felizmente, os cientistas têm avançado bastante nos estudos para a solução dessa epidemia mundial, bem como os povos tradicionais têm mostrado soluções práticas para que a espécie humana permaneça viva. Cabe agora aos líderes mundiais e regionais, empresas e até mesmo o mercado financeiro responderem a essa pandemia com a urgência necessária. É preciso que os países sigam com a cooperação internacional sem precedentes, iniciada em 2015 com o Acordo de Paris e viabilize fundos urgentes para que as populações já afetadas pelo vírus possam se adaptar aos seus efeitos tão catastróficos e criar soluções para mitigar os efeitos dessa crise. Uma quarentena deve ser decretada o quanto antes e deve ser declarada uma emergência climática global por todos os países para barrar as emissões de Gases do Efeito Estufa, que são uma das principais causadoras da crise climática. É uma questão de vida ou morte.

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Jovens do Engajamundo, parceiros da Agência Jovem de Notícias