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A Escola de Cidadania para Adolescentes chegou a Belém do Pará

Em dezembro, por meio de uma parceria entre a Viração e a Unipop (Instituto Universidade Popular), o projeto começou a ser implantado na cidade, envolvendo 34 adolescentes entre 14 e 19 anos de Belém e da região metropolitana em atividades de formação para a cidadania, produção de conteúdos e realização de ações comunitárias.

As ações começaram no dia último dia 03, na sede da Unipop, com uma conversa sobre como as e os adolescentes gostariam que fosse uma escola, quais suas ideias sobre cidadania e sobre adolescência e quais os direitos básicos. Assim, a turma traz reflexões que podem tanto contribuir para que o processo de formação atenda suas expectativas, quando iniciar uma conversa sobre as concepções que carregam sobre cada um desses conceitos.

Ainda no primeiro dia, a galera falou sobre o que poderia agregar pluralidade ao espaço físico e não físico, nos dias seguintes de encontro. Além de iniciarem os preparativos para a realização de mapeamentos afetivos de suas comunidades, lançando um olhar sobre seus bairros/periferias e trazendo como elemento principal as problemáticas enfrentadas no dia a dia, assim como ações de mudanças para a melhoria e garantia/valorização da vida da juventude.

O projeto segue durante todo o primeiro semestre de 2019 e essa turma ainda vai fazer muita coisa junta, em prol de uma cidadania efetiva para a juventude de Belém.

Quanto vale um jovem?

Por Jonathan Moreira, da Agência Jovem de Notícias São Paulo

“Acordo. Almoço. Toma um banho. 23 minutos. Peço benção pra minha mãe. Enfrento ônibus lotado. Depois de 2 horas chego à Universidade. 23 minutos. Estudo. Sinto o meu “atraso” na aula. Vejo o reflexo de anos de escravidão. 23 minutos. Enfrento fome e desemprego. Volto pra casa. No escuro da cidade que me atravessa, bato a cabeça cansada na janela meio suja, mas que aparentemente se torna o melhor lugar. Chego em casa. 23 minutos”.

Com pausas bruscas e com a angústia de saber/sentir que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, começo meu texto.

Hoje é o dia Internacional da Juventude, data que não é recebida com cerimônias ou mensagens em peso na internet. As vezes é tratado com verdades estabelecidas e, quando muito, apenas um discurso biológico e cientificista. Achar que o conceito de juventude sempre esteve presente e inato em nossa sociedade é um erro, assim como acreditar que toda perspectiva sobre ser jovem é igual. Mentiras que são postas nesta sociedade, em que o disparate verbal se torna mais importante que o fato histórico em si.

O jovem é uma figura muito recente em nossa sociedade, se colocarmos em uma perspectiva histórica, e quando este é posto como um sujeito de direitos e com especificidades, o negócio fica mais louco ainda. Pois muitas vezes nós jovens somos considerados, simplesmente, como uma fase de transição, na qual nossa única capacidade é  aprender com os mais velhos para tornarmos adultas as ideias.

Recipientes vazios que são preenchidos com uma sabedoria que estampa e canta experiências e conhecimentos. Mas não é assim. A partir do momento que o ser humano nasce, suas relações com o espaço, o tempo e com as pessoas, já geram muitas experiências e conhecimentos que devem ser levados em conta. Não que exista alguma verdade extremamente absoluta. Mas o espaço de compartilhamento deve ser estabelecido.

O fato dos nossos corpos e percepções a respeito o mundo estarem em constante movimento, não diz que somos simplesmente inocentes e ignorantes. Estamos em um momento especial de nossas vidas, com grandes transformações e relações, que não dizem apenas sobre o corpo físico, mas que transbordam.

Percebo que o desejo do controle total sobre as escolhas do corpo jovem é uma forma de garantir o controle social, pautado em ideias que conservam diversas violências, como desigualdades de gênero e raça. Pensamentos que configuram o país como uma máquina de matar. O Brasil ocupa a sétima colocação em número de assassinatos de pessoas entre 15 e 29 anos no mundo, morte que tem cor, gênero e classe.

Ademais, quando colocamos o jovem negro em questão, as percepções mudam significativamente. Pois enquanto alguns estavam lutando pela garantia dos direitos da juventude, adolescentes e jovens negros lutavam pelo reconhecimento de serem humanos. Quando vemos em manchetes de jornai que os brancos são considerados “jovens” e os negros “menores infratores”, entendemos a significação do corpo negro.

Pelo fato de estarmos alicerçados em um contexto racista e escravocrata, que é ignorado por muitas figuras públicas, somos vistos apenas como mão de obra e força produtiva, privados dos direitos dignos de todo ser humano. Somos uma “nação” que se alimentou em peitos de garotas pretas que, antes de se (re)conhecerem, eram transformadas em mulheres, em plenas agressões, que escorrem em nossa atualidade.

Quando decidi fazer faculdade recebia e ainda recebo muitos olhares surpresos.  Grande parte dos meus amigos de infância estão ralando desde muito cedo, trabalhos informais para conquistarem sua independência financeira. Jovens pobres que muitas vezes não têm a oportunidade de viveram diversas experiências, espaços e conhecimentos, pois precisam contribuir com a renda familiar. Estão entregando folhetos, vendendo água no trem e no trânsito, ajudando em serviços braçais, cuidando de crianças, fazendo faxinas.

Ou estão sendo assassinados no tráfico por uma violência policial cruel e um Estado que trata o corpo jovem negro como marginal, individualiza todas as suas escolhas e ações, como se tudo dependesse exclusivamente dele, ofusca as diversas subjetividades e desigualdades sociais que trilham “muito bem” o caminho deste jovem. Assim como tumbeiros que cortaram este grande mar com lágrimas salgadas. PAUSA. 23 minutos. “ELE NÃO VIU QUE EU ESTAVA COM O UNIFORME DA ESCOLA”. Marcos Vinicius da Silva, 14 anos. Ou só mais um Silva. De pele escura. É assassinado por forças policiais e do Estado.

Este sistema vigente está cada vez mais usando ferramentas meritocráticas para não se responsabiliza pelass dívidas e deveres sociais. Não ponderam as desigualdades  de gênero, raça e classe. Como se tudo dependesse apenas de você, apagam qualquer resquício histórico. O “fracasso” não é um problema exclusivamente individual, não empurra só você. Leva também  pessoas com histórias semelhantes a sua.

Mas enquanto não verem as experiências dos jovens além da carteira assinada, enquanto não perceberem nossa potencialidade, ouvirem nossas contribuições sem classificar como “ele não sabe o que está falando”. Enquanto não houver reparações histórias para jovens negros e pobres será muito difícil arranjar um trampo. E por fim, estabelecer uma juventude que vivencia e contribui ativamente para o desenvolvimento do país e do mundo parece uma tarefa intensa, mas saiba que existem muitos movimentos de jovens lutando por maior participação na política, em ONGs, associações, famílias… Para construírem juntos, caminhos menos tortuosos.

Comer é um ato político?

Por Karina Nishioka e Fabrício Muriana, associados e idealizadores do Instituto Feira Livre *

 

Muita gente já germinou um grão de feijão no algodão. Muitos transplantaram o feijão para a terra e puderam ver o grão se transformar numa vagem cheia de outros grãos. A ideia mais simples de agricultura, como a atividade que depende apenas de sementes e terra para que qualquer pessoa cultive seu próprio alimento é libertadora e democrática. Mas, se é assim tão simples, porque vemos por toda parte campanhas de combate à fome e trabalhadores do campo tão miseráveis?

 

Constantemente nos depararmos com a informação de que a agricultura tradicional, como a conhecemos, não atende à demanda mundial por alimentos. A partir da nossa percepção sobre o crescimento da população nas grandes metrópoles ou sobre o movimento migratório das pessoas do campo para as cidades, essa informação soa factível: existem menos pessoas plantando e mais pessoas comendo.

 

Para manter os supermercados abastecidos, o problema da demanda abriu espaço para soluções tecnológicas que rapidamente permitiram que a agricultura tradicional, responsável por abastecer cadeias curtas de consumo, desse lugar às grandes plantações. Monoculturas setorizadas que produzem alimentos para o mercado interno e externo. Passamos a cultivar em escala e exportar comida sob a ótica do agronegócio e sob o argumento de erradicar a fome.

 

A tecnologia que tanto nos ajudou a promover qualidade e diversidade, indispensáveis em diversos lugares, interferiu na dinâmica do campo. O agricultor que selecionava, germinava e plantava suas sementes segundo conhecimentos ancestrais, viu surgir ao lado de sua terra, fazendas dedicadas a poucas espécies, com sementes patenteadas que faziam necessário o uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, e assim asseguravam a colheita mecânica de um mesmo insumo o ano inteiro. A produtividade a qualquer preço, que tem por único fim o lucro, trouxe riqueza ao dono da propriedade enquanto oferecia poucas alternativas ao pequeno agricultor e à população rural: ou passa-se a produzir sob os novos moldes, ou sofrerá as múltiplas consequências de enfrentar o agronegócio.

 

Em entrevista ao Nexo, Paolla Carosella comenta que se os alimentos cultivados com agrotóxico realmente alimentassem o mundo, ela estaria de acordo com o uso. O argumento dela contra agrotóxicos se encontra no fato de que por onde passam, os produtos da indústria química deixam um rastro de miséria. Aumenta o número de mortes no campo por contaminação. Em geral seu emprego está atrelado a uma agricultura altamente mecanizada, onde o fator humano é (e historicamente é) relegado às piores condições. Ninguém em sã consciência optaria por trabalhar com venenos por toda uma vida se não fosse essa uma de suas únicas alternativas de sobrevivência. Não por acaso, um dos maiores problemas relatados por agricultores é que a vida no campo vem perdendo sua dignidade, o que faz com que ainda menos gente se interesse por permanecer no campo e por produzir.

 

Na outra ponta da cadeia está uma maioria de consumidores que vivem um tempo em que a normalidade é o consumo de alimentos cultivados com o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos, sem saber quais e em quais quantidades. O agronegócio conta com a desinformação transversal como estratégia para inibir manifestações sociais e dinheiro para garantir a permeabilidade desses métodos em meio às políticas públicas. A união entre agronegócio e outros setores da indústria, que cooperam na manutenção desta realidade, tornam ainda mais difícil a resistência por parte das organizações da sociedade civil.

 

Quando afirmamos que comer é um ato político, o fazemos sabendo que é impossível transformar a realidade por completo apenas pela via do consumo. Ademais, nem todos podem escolher qual alimento consumir. Mas, enquanto diante de escolhas, não nos conscientizarmos de que mastigar é contribuir para a produção, distribuição, comercialização e consumo daquele produto, gerando reflexos econômicos, ambientais e sociais, seguiremos servindo à política dos que nunca deixaram de fazê-la.

 

* O Instituto Feira Livre é  uma associação sem fins lucrativos que promove o acesso a produtos orgânicos de maneira transparente e sustentável: sem agrotóxicos e sem especulação. A proposta é estabelecer relações comerciais justas com todos os atores da cadeia produtiva, conectando quem produz a quem consome. No primeiro semestre de 2018, o Instituto Feira livre tornou-se parceiro da Viração na oferta de lanches orgânicos e saudáveis para os jovens participantes das atividades realizadas pela organização.

As violências acometem adolescentes LGBT da mesma forma?

Por Tulio Bucchioni, Antropólogo e pesquisador na área de gênero e sexualidade

Interseccionalidade. Você já ouviu falar nesse conceito? Essa palavra enorme tem uma história ainda mais longa: sua origem remete ao movimento feminista negro norte-americano das décadas de 70 e 80. A ideia de que a identidade e a nossa experiência no mundo são marcadas por fatores múltiplos e interseccionais, relativos a nossa posição de classe, nossa raça/cor, nossa sexualidade, nossa geração ou nacionalidade, entre outros aspectos, deu origem ao termo interseccionalidade.

A especificidade da intersecção de categorias é o que faz as vivências, o campo de possibilidades, as referências e a trajetória de vida de um jovem gay, negro e pobre serem muito diferente daquelas de um jovem gay, branco, de classe média. Nesse sentido, acreditamos que para combater efetivamente as desigualdades, é preciso se pensar interseccionalmente. Não basta combater a LGBTfobia se não combatemos o racismo em nossos ambientes escolares e espaços educativos – um jovem LGBT branco não está imune de reproduzir atitudes e pensamentos racistas, ainda que saiba o que significa ser oprimido.

A todo momento associamos a diversidade com a população LGBT. Na maioria das vezes, essa associação diz respeito a expressões e vivências de identidade de gênero e da sexualidade não-normativas, não heteronormativas. Mas, e quanto a diferenças raciais e diferenças sociais entre a população LGBT? É fundamental aprofundar a discussão sobre a experiência do que é ser gay ou lésbica e negro, do que significa ser uma pessoa trans e ter sua renda e capacidade de sobrevivência impactada pelas condições desafiadoras de estudo e de empregabilidade no Brasil, por exemplo.

Nesse sentido, acreditamos que o conceito de interseccionalidade é uma ferramenta fundamental para todas as pessoas que trabalham com educação. Para encorajar você a compreender melhor essa ideia, sugiro duas leituras acadêmicas que abordam o assunto:

MOUTINHO, Laura. Diferenças e desigualdades negociadas: raça, sexualidade e gênero em produções acadêmicas recentes. Cadernos Pagu, Campinas, 2014, n.42, p. 15. Clique aqui e acesse a fonte. Acesso em: dezembro de 2015.

PISCITELLI, Adriana. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras. Sociedade e Cultura, Goiania, v.11, n.2, jul/dez. 2008. Clique aqui e acesse a fonte.